Cabo Verde, meu amor impossível, há muito que estava pensando em escrever esta carta, há muito que estava pensando dizer-te, uma vez por todas o que sinto, o que penso de ti, tu minha mãe, minha esposa, minha irmã e confidente.
Gostaria que lesses esta carta. Antes do meu requiem.
Ei-la.
Mãe, por causa de ti chorei, chorei a dôr da separação, não querendo ouvir nada de mal sobre ti, não querendo acreditar que estavas cometendo essa abominação, a traição: na minha mesa o estrangeiro está comendo, na minha cama ele está deitando.
E contudo, o doce murmúrio das tuas brisas, o louco encanto das tuas praias me fazem sorrir. Por um momento me esqueço que a dor da traição pode ser maior.
Terra minha, meu amor, minha esposa querida, sofro de saber que tudo queres de mim sem nada dar em retorno. Oh, montes e maravilhas me são prometidos, só pra descobrir que os montes são castelos de cartas e as maravilhas, fictícias.
Pena de mim não tens. Eu o teu filho, que não querendo te ver sofrer, saí de conjunto com meus irmãos pelo mundo fora, com o desejo de te fazer feliz.
No frio desumano dos países nórdicos trabalhei, nos ambientes mais sórdidos dos bares e bordéis tentei matar saudades tuas. Doravante sábados e domingos não existiam porque minha missão teria que ser cumprida. Do melhor e do mais caro te mandei. Quanto mais te dei mais me pediste, quanto mais chorei da tua indeferença, menos atenção me deste.
Oh mãe, quantas vezes te amaldiçoei, até nacionalidade de um outro país tomei, com o desejo de nunca mais te ver. Eu até pensei, num momento de raiva não contida: só se algum pássaro me engolir e for ali me cagar, é que eu verei essa ingrata.
Mas a paixão que me une a ti sempre vence.
Meu amor incondicional é teu. Que tens para me oferecer?
Eu tentei voltar. Mas não queres ver-me. Seria eu, o imigrante tão maldito, que a minha própria terra não quer que eu regresse? Seria eu um mau filho?
Não, a verdade é mais horrenda. Perto de ti de nada sirvo. Meu destino é estar longe pra que possas ser feliz. Perto de ti, minha amada, não terei a possibilidade de te encher de riquezas, de ouro e prata. Perto de ti eu acabaria por pedir explcações. Por isso, queres-me longe para poder abrir teus braços atraentes a outrem.
Não mãe, pena de mim não tens. Eu o imigrante, que no alto mar morri, esmagado nas ruas de Paris ou Nova Yorque, eu que, bofetadas físicas e psicilógicas tomei para poder oferecer-te jóias, eu o imigrante que de tanta dôr me enforquei, eu o filho maldito a quem são oferecidos os restos do pratro no qual babou o estrangeiro, o qual foi servido com o fruto do meu labor, eu a vaca leiteira que de cancer estou morrendo por ter sido chupado toda a minha vida, eu o pobre coitado que não quis estudar, bem que vivia na casa de Molière, passava os fins de semana no castelo de Shakespeare, com Camões dialogava sobre o futuro da lusofonia, só pra poder dispor de todo o tempo possível para catar todo o dinheiro possível. O dinheiro que te ofereço. Eu que, cego, neguei que Mozart, Bach ou Zola tinham credenciais suficientes pra se comparar a B. Leza ou Eugénio Tavares. Eu que, falando com Plácido Domindo e Pavarotti argumentei que Bana não tem igual, colocando meu chauvinismo no zenith, só porque o amor é cego.
Eu te defendi, te cobri, mas agora que quero perto de ti estar, me voltas as costas, me dizes que se algo quero, vou ter que lutar. Mas como posso lutar contra inimigos invisíveis, lutar sabendo que o resultado já está escrito no quadro negro da tua traição?
Eu que, sem forças te peço um último favor: se queres que eu lute, permite-me fazê-lo com armas iguais.
Não te escondas atrás da burocracia, mãe querida. Põe de lado todo nepotismo e dá-me a possibilidade de te mostrar que sou digno de ti. Não tenhas vergonha de mim pois o tempo passa, como as modas, mas teu filho semppre serei, com o mesmo amor. Incondicional.
Agua fresca do pote choroso te trarei, teus pés lavarei, se a lua me pedires a trarei. Só um olhar teu e teus desejos, todos, serão abastecidos.
Teu filho, mãe querida, sou que o queiras ou não. Os outros, donde vieram voltarão, com tudo o que trouxeram, e mais.
Cabo Verde querida, te amo.
Lu
Sunday, November 14, 2010
Carta a Cabo Verde
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